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Polêmica

Educação em Caarapó: empresário rebate ex-prefeito André Nezzi e nota do SIMTED

Um áudio privado rendeu vídeo editado, nota de repúdio, programa de rádio e manchete

Publicado em 31/07/2026 às 10:31
Atualizado em

O ex-prefeito de Caarapó, André Nezzi e o SIMTED (Foto: Divulgação )

Um áudio gravado há mais de 420 dias, em um grupo fechado de WhatsApp, foi divulgado sem autorização nesta semana. Na gravação, feita em ambiente privado, o empresário Paulo Eduardo Martins — ligado ao grupo Alô Mídia— manifesta indignação com a situação da educação municipal, ao comentar um ranking salarial que acabava de ser divulgado.

Segundo o empresário, o mesmo grupo participavam secretários, colaboradores e o então vereador da base da prefeita, Celso Capovilla — à época adversário ferrenho do André Nezzi e, atualmente, seu maior aliado.

O uso político

No mesmo dia em que o áudio foi publicado no site de André Nezzi, acompanhado de um vídeo editado, saiu também a nota de repúdio do SIMTED, o sindicato municipal da educação — divulgada, na íntegra, no mesmo site do ex-prefeito.

No seu programa diário de críticas à atual gestão, na rádio comunitária Caarapó FM, o ex-prefeito usou a gravação para, gratuitamente, atacar a prefeita — que não é autora da fala divulgada.

A frase que o áudio não contém

A nota do sindicato atribui ao áudio, entre aspas, duas frases: 1) que os professores “não produzem nada” e 2) que “não fazem nada”.

 E constrói sua acusação central justamente sobre a segunda frase. Diz a nota: “Generalizar uma categoria inteira e afirmar que seus profissionais ‘não fazem nada’ revela (...) uma lamentável falta de respeito”.

Ocorre que a gravação não contém essa frase.

A palavra registrada no áudio é “produzindo” — uma referência a resultados.

E resultados eram exatamente o que os índices oficiais mediam naquele momento. “Não fazer nada” é outra coisa: é acusar alguém de não trabalhar.

Essa frase não foi dita.

Por erro ou má-fe dos dirigentes do SIMTED, está entre aspas na nota como se tivesse sido.

O sindicato cobra — com razão — responsabilidade com as palavras.

A cobrança vale para todos: inclusive para o próprio sindicato que coloca entre aspas palavras que não existem.

Motivos da indignação do autor da fala

À época da gravação, há quatorze meses, os dados mais recentes da educação municipal, publicados pelo INEP, eram os piores em uma década. 

Qualquer cidadão que acompanhasse os indicadores tinha motivos de sobra para estar indignado.

Os números que ninguém comenta

Em 2019, a rede municipal de ensino de Caarapó alcançou 5,0 no Ideb dos Anos Finais (6º ao 9º ano) — o melhor resultado da sua história.

Quatro anos depois o resultado despencou para 3,8.

A meta era 5,5. A média nacional das redes municipais atingiu 4,6.

A queda ocorreu integralmente dentro da gestão André Nezzi.

E não há como culpar o aluno ou a família. Na mesma cidade, com as mesmas famílias, a rede estadual registrou 6,7 nos Anos Iniciais — contra 5,1 da municipal. Nos Anos Finais, 4,7 da rede estadual contra 3,8 da rede municipal.

Municípios vizinhos, menores e com menos dinheiro por habitante aplicado em educação, entregam mais: Angélica, gastando menos que Caarapó, alcançou 6,5 nos Anos Iniciais.

A rede municipal provou que consegue — o 5,0 de 2019 é a prova.

O que mudou de lá para cá não foi a capacidade das escolas. Foi a gestão justamente daquele que agora demonstra indignação com a situação da educação.

Mérito dos professores

Em 2020, ao comemorar publicamente o Ideb de 2019, a então secretária de Educação da gestão Nezzi atribuiu o resultado ao “mérito do trabalho de toda a equipe” — e “dos professores, que não mediram esforços”.

O que explica que, com o mesmo quadro de professores, o Ideb caiu de 5,0 (primeiro ano da gestão) para 3,8 ao final da gestão?

Os professores se esqueceram como se ensina?

Quem é o verdadeiro responsável?

“Material didático não serve para nada”

André Nezzi, hoje o mais barulhento crítico da educação municipal tem, ele próprio, uma frase registrada que responde às perguntas anteriores.

Em seu programa de rádio, ao criticar gastos da atual gestão com material escolar, o ex-prefeito afirmou que “material didático não serve para nada”. A gravação está disponível, na íntegra, no Instagram do Alô Caarapó.

O retrato se completa: o gestor sob cujo mandato o Ideb caiu de 5,0 para 3,8 — e que despreza publicamente o material que a criança leva para a escola — apresenta-se agora como o grande indignado com a educação de Caarapó. E como aliado do sindicato dos professores, o SIMTED.

O silêncio seletivo

O SIMTED sempre foi combativo quando a pauta é salário, carreira e direitos — e deve ser. Essa é uma das funções de um sindicato.

O que os registros públicos não mostram é a mesma indignação do SIMTED diante dos números alarmantes, à época, que a gestão entregou às crianças.

A reportagem procurou e não localizou uma única manifestação do SIMTED sobre a queda do Ideb da rede municipal em 2021, nem sobre a queda maior de 2023 — a mais grave da história da rede. 

Se essas manifestações existem, este espaço está aberto para publicá-las na íntegra.

A avaliação fica para o leitor: diante de um áudio privado de um cidadão indignado, a nota de repúdio saiu no mesmo dia. Diante do pior Ideb da história da rede municipal de ensino, o silêncio do SIMTED permanece até hoje.

E os professores? Os dados respondem por eles

Com o mesmo quadro de professores, na atual gestão, Caarapó atingiu 80% de crianças alfabetizadas na idade certa em 2025 — 1º lugar entre os municípios da região de Dourados e integrante de um seleto grupo de 15 municípios em todo o estado a atingir esse patamar.

O corpo docente não mudou. A gestão mudou.

A conclusão vale para qualquer rede de ensino do país: resultado de escola é obra de gestão.

Quando a gestão funciona, o trabalho do professor aparece. Quando não funciona, nem o melhor professor do mundo consegue fazê-lo aparecer.

O que fica

Um áudio privado rendeu vídeo editado, nota de repúdio, programa de rádio e manchete.

Quatro anos de números oficiais seguem sem uma palavra de quem hoje disputa o título de defensor da educação.

Este espaço permanece aberto:

. ao ex-prefeito André Nezzi, para explicar contextualmente os indicadores do seu período aqui expostos; 

. ao SIMTED, para corrigir sua Nota de Repúdio e republicá-la, trazendo as palavras efetivamente proferidas.

Fontes: INEP — divulgação oficial do Ideb 2023 por município e por escola · INEP — Taxas de Rendimento 2019–2024 · Indicador Criança Alfabetizada 2025 · Siconfi/Tesouro Nacional — DCA · Nota do SIMTED, 28/07/2026, publicada na íntegra no CaarapoNews · Jornal Agora MS, 2020 — declaração da secretária de Educação sobre o Ideb 2019.

Fonte: Alô Caarapó

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