Enquanto muitos estudantes desmontam cenários de festas juninas e feiras científicas sem imaginar o destino dos materiais usados, uma professora de Mato Grosso do Sul decidiu transformar o desperdício em oportunidade. A ideia nasceu dentro de escolas públicas de Naviraí e acabou ganhando reconhecimento nacional ao mostrar que sustentabilidade também pode começar na sala de aula.
O projeto “SIRE – Sistema de Reuso Escolar”, criado pela educadora Daniele Bassanesi, conquistou o 3º lugar na categoria Jornada de Inclusão e Sustentabilidade na Educação durante a 3ª edição do Prêmio Educador Transformador. O resultado foi anunciado no último dia 6 de maio, em São Paulo, durante a Bett Brasil, considerada a maior feira de inovação e tecnologia educacional da América Latina.
A premiação, promovida pelo Sebrae, Instituto Significare e Bett Brasil, reconhece iniciativas capazes de criar soluções inovadoras para desafios reais da educação brasileira. Neste ano, o tema central foi “Educação para enfrentar crises e construir futuros regenerativos”.
Foi justamente olhando para um problema cotidiano das escolas que Daniele encontrou a inspiração para o projeto. Ao acompanhar a rotina de eventos escolares, percebeu que materiais produzidos para feiras culturais, apresentações, saraus e festas juninas eram frequentemente descartados pouco tempo depois de serem utilizados, mesmo ainda estando em boas condições.
A partir dessa percepção surgiu o SIRE, uma plataforma digital criada para conectar escolas e estimular o reaproveitamento de recursos. O sistema funciona como uma espécie de rede colaborativa: cada instituição pode cadastrar materiais sem uso, permitindo que outras unidades solicitem os itens, utilizem e depois devolvam ao local de origem.
Na prática, o projeto amplia a vida útil dos materiais, reduz custos e diminui o desperdício dentro das escolas, aplicando conceitos de economia circular no ambiente educacional.
Segundo a analista-técnica do Sebrae, Priscila Veloso, a conquista coloca Mato Grosso do Sul em evidência no cenário da educação inovadora.
“Projetos como o SIRE mostram como a educação pode unir inovação, sustentabilidade e protagonismo, ao possibilitar um melhor aproveitamento de materiais e recursos escolares com base na economia circular”, destacou.
O projeto começou a ser desenvolvido junto à gestão da Escola Estadual Eurico Gaspar Dutra, onde Daniele atua atualmente como professora coordenadora de suporte à aprendizagem.
Antes de colocar a proposta em prática, a educadora decidiu validar a ideia ouvindo quem vive o problema diariamente. Um questionário aplicado em três escolas reuniu respostas de 78 professores e confirmou que o desperdício de materiais é uma realidade comum em diferentes redes de ensino.
“A aceitação foi imediata porque essa é uma dor recorrente nas escolas. Acreditamos que o projeto também ajudará os estudantes a desenvolver consciência sobre sustentabilidade”, afirma Daniele.
A trajetória da professora com projetos de inovação educacional já vinha sendo reconhecida anteriormente. Em 2024, ela conquistou o primeiro lugar na segunda edição do Prêmio Educador Transformador na categoria Ensino Médio. Agora, voltou ao cenário nacional com uma proposta ainda mais ampla, voltada à integração entre escolas e, futuramente, até entre diferentes redes de ensino.
Mesmo ainda em fase de prototipagem, o SIRE já ganhou visibilidade nacional e reforça um movimento crescente dentro das escolas: o de transformar problemas cotidianos em soluções sustentáveis e colaborativas.
“Estamos vivendo um momento de transição na educação, e ninguém melhor do que nós, educadores, para conduzir essa mudança. Inovar por meio de projetos é uma forma de inspirar os estudantes a encontrarem soluções inteligentes para problemas sociais que impactam diretamente o cotidiano das escolas e da sociedade”, resume Bassanesi.
Na etapa nacional do prêmio, os terceiros colocados de cada categoria receberam notebooks e mochilas como premiação.